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A ciência por trás do nocaute nos esportes de combate

O nocaute é um termo amplo nos esportes de combate, como o boxe e o MMA. Tecnicamente, é um critério para declarar um vencedor de uma luta e encerrar, assim, um combate. Mas, popularmente, o nocaute é generalizado ao seu mais marcante tipo: a perda repentina e traumática de consciência após um poderoso golpe ou uma sequência de ataques. A imagem que mais está presente nos replays das lutas esportivas é a de uma pancada, seguido de uma pessoa caindo dura no ringue, uma comemoração após a sinalização do árbitro e a checagem de alguém que provavelmente indaga “quem anotou a placa do caminhão?”.

Mas o cuidado do árbitro e do médico é valioso nessa hora. O nocaute que mais conhecemos trata-se de uma concussão causada por um golpe ou por acúmulos de golpes na cabeça, um pequeno dano cerebral que apresenta uma momentânea disfunção do órgão. O cérebro é o ponto-chave do sistema nervoso que tem uma consistência de uma barra de manteiga e, com impactos do tipo, há um efeito chicote dentro do crânio, com o órgão indo para frente e para trás se chocando com as paredes ósseas. Tal tipo de trauma é caracterizado por sintomas posteriores, como a confusão ou a perda de memória de curta duração, dor de cabeça, mudanças comportamentais como irritabilidade e até distúrbios no sono. O osso frontal, temporal e a mandíbula (este último sendo um dos principais alvos do uppercut) são locais bastante atingidos e muito vulneráveis para uma concussão.

Sabe-se que microhemorragias causadas por esses impactos podem progressivamente levar ao Parkinson e a chamada demência pugilística, uma doença neurodegenerativa atribuída ao boxe e presente nos livros médicos desde 1928. Esta, porém, é mais rara no MMA, tendo seu primeiro caso confirmado em outubro de 2016, na autopsia do falecido lutador Jordan Parsons (que morrera em maio daquele ano vitima de atropelamento). Mais graves ainda são casos bastante raros de hemorragias e acidentes vasculares por causas desses golpes, como o que levou a morte do lutador de MMA e boxe Tim Hague no mês passado. Derrubado diversas vezes durante a luta com regras do boxe, Hague faleceu no dia 18 após um nocaute.

Evangelista Cyborg após sua lesão no Bellator 158
Evangelista Cyborg após sua lesão no Bellator 158

Traumatismos cranianos severos são raros, mas podem acontecer, como foi o caso do astro de MMA Evangelista “Cyborg” Santos em julho de 2016, que afundou parte do osso frontal da cabeça com uma joelhada. Felizmente, passa bem hoje.

Um lutador também pode sofrer uma síncope (desmaio) pelo reflexo no seio carotídeo, ou seja, os receptores das artérias responsáveis pelo fluxo sanguíneo causam alterações na pressão arterial e/ou na frequência cardíaca que levam ao desmaio. E nem sempre o nocaute ocorre por ataques direcionados a cabeça. O baço e o fígado, localizados abaixo das costelas e enervados pelo plexo esplênico, o gânglio celíaco e o nervo pneumogástrico, são alvos pela grande sensibilidade que essas regiões possuem. A dor debilita o oponente e colabora para que o mesmo seja levado a lona e sua derrota declarada.

Quanto ao outro tipo de nocaute, temos o nocaute técnico. São os combates terminados por decisão médica, do árbitro ou dos treinadores, quando há lesões e ferimentos que impossibilitam a segurança do lutador. Em um exemplo, o treinador pode falar em nome do lutador quando percebe potenciais perigos e danos desnecessários. O árbitro pode interromper uma luta por diversos motivos, incluindo ao perceber que não há reação do lutador ao ser vítimas de ataques ou quando este foi derrubado múltiplas vezes (o último não acontece no MMA).  

Na década passada, o Journal of Combative Sport listou 1255 mortes durante combates de boxe ou por decorrência desses combates ao redor de 72 países, entre os anos de 1741 e 2005. Vale lembrar que muitas empresas não fazem uso de peças obrigatórias, seguem normas de segurança e tem uma assistência médica rebuscada, incluindo para análises e exames dos atletas. No MMA, há registro de cinco mortes em torneios regulamentados desde 2007 e oito mortes em torneios desregulamentados desde 1981. Número muito menor que no futebol, por exemplo, que vitimou 8 pessoas só em 2016.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

“Facts about Concussion and Brain Injury and Where to Get Help.” U .S. Department of Health and Human Services Centers for Disease Control and Prevention.

DAMIANI, Daniel, et al. Encefalopatias: etiologia, fisiopatologia e manuseio clínico de
algumas das principais formas de apresentação da doença. Rev Bras Clin Med, São Paulo, v. 11, n. 1, p. 67-74, jan./mar. 2003.

MARTLAND, H.S. Punch Drunk. Journal of the American Medical Association, v. 91, n. 15, p. 1103–1107, oct. 1928, doi:10.1001/jama.1928.02700150029009.

Julio Batista

About Julio Batista

Julio Batista Editor | Graduando em História e roteirista especializado em Cinema, TV e WebTV e videoclipes. Autodidata e livre pensador, amante das ciências, da filosofia e das artes.
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